terça-feira, 17 de junho de 2008

A Lei de Biossegurança e o Sonho de um Estado Laico

A votação da Lei de Biossegurança no Supremo Tribunal Federal expôs uma divisão crucial que existe no pensamento brasileiro. Verdade é que, às vezes, nossa sociedade não consegue separar o que é secular do que é religioso. Baseada na opinião de uma Entidade, a Igreja Católica, o STF quase mandou o país para o mesmo limbo para o qual tendem a mergulhar outros países que vetarão, certamente, as pesquisas com células-tronco. Baseados em uma opinião. Nada mais. Afinal de contas, a Ciência já definiu e demonstrou que a vida de qualquer ser humano começa com a formação do cérebro. De um ponto de vista mais hermético, digamos, quando o ser humano adquire a possibilidade de ter sensações. A dor é uma delas. Daí, um embrião não é um ser humano, nem mesmo um feto. Ainda não é um ser humano e não o será, a não ser que seja implantado. Todavia, já estava definido que apenas aqueles que seriam descartados seriam usados em pesquisas. Daí seu encaminhamento para tal nem deveria ser discutido. Todavia, devido à opinião da Igreja, isto teve de chegar até o Supremo e passar por um (!) voto de vantagem.

Isto remete aos tempos do então presidente da República, José Sarney, quando este vetou a exibição nos cinemas do país, em 1985, do filme de Godard, Je vous salut, Marie, simplesmente porque, na opinião da Igreja Católica, a película vulgarizava a figura da Santa Mãe. Não discuto a grandeza da figura de Maria, que, como cristão, eu também respeito e venero, todavia o meu direito, e o de todo brasileiro, de ver o filme de Godard no cinema foi suprimido em função da opinião da Igreja Católica de que o mesmo era ofensivo.

Todos os dias eu acordo com a esperança de viver, um dia, num Estado laico, em que as conquistas da Ciência, baseadas em pesquisas, testes, experimentos e todo o aparato que sustenta as nossas conquistas tecnológicas e até sociais, tenham prevalência sobre opiniões, por mais louváveis que possam parecer, em julgamentos deste tipo. Não custa lembrar que, baseada em suas opiniões, a Igreja promoveu a Inquisição, da qual é inútil lembrar os feitos. Outro exemplo: no início da colonização do Taiti pelo século XVI, para convencer os nativos do quanto o trabalho é sagrado e importante, os missionários católicos cortaram todas as árvores de fruta-pão, simulando o estado de escassez para o qual a civilização foi criada, na opinião da Igreja, uma vez que, quando eles tinham fome, apanhavam frutas-pão para comer. Sinceramente, existe bom-senso nisso?

Assim, sempre que algum tipo de obscurantismo ameaça passar como um ciclone sobre o bom senso, ou sobre as grandes virtudes que nos tornam melhores, ou que nos proporcionam melhores condições de enfrentar as lides de cada dia, confesso, sinto um desalento muito grande.

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